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O QUE A CANNABIS TEM A VER COM A CAUSA LGBTQIA+?

Assim como maconhistas recorrem aos seus becks, para responder essa pergunta recorremos à pesquisa. Um elo de ligação importante desses dois movimentos era a inflamação de toda uma camada da sociedade, na época surgia a Contracultura, movimento de jovens putos com as normas e padrões culturais do momento, um bom exemplo é o surgimento do movimento hippie, com artistas de diversas áreas, escritores, ativistas que estavam cansados do jeito imposto pela sociedade e queriam mais era paz e amor mesmo para romper com as regras do jogo.

 

Mas não só de Woodstock era feita a contracultura, temas como feminismo, direitos civis, ambientalismo, igualdade racial, movimentos estudantis e anti guerra eram pautas que também inflamavam como brasas no sofá, os jovens da época.

 

E nesse cenário que começa a união das nossas histórias, e dentre tantas brasas vamos nos concentrar nas duas que nos conectam.

 

 

Stonewall O Importante movimento que deu início às organizações pelos direitos da comunidade LGBTQIA+

 

Nas décadas de 50 e 60, nos EUA, a sociedade e o próprio sistema jurídico era contra a existência de pessoas LGBT, que eram sempre perseguidas e impedidas de direitos básicos, as batidas policiais eram frequentes em bares e estabelecimentos que permitiam a entrada de LGBTs fazendo com que poucos lugares estivessem abertos a esse público e os poucos que se abriam eram punidos por meio dessas batidas. Acontece que a região de Greenwich Village está para NY como a Augusta está para SP, mais soltinha, e ali resistia a comunidade e aliados. Na madrugada de 28 de junho de 69 a polícia decidiu invadir o bar Stonewall Inn e aí a treta ficou pesada, foram dias de motins, confusões e reuniões com ativistas para que eles pudessem de alguma forma proteger todos os membros da comunidade e os lugares que apoiavam e permitiam sua existência. Esse foi um marco muito importante nessa luta, no ano seguinte já surgiam as primeiras Paradas do Orgulho LGBTQIA+ homenageando esse momento e cada passo em direção a um pouco mais de espaço e direitos.

 

 

Surgimento das Headshops

 

Exatamente nesse momento da contracultura, surgem as lojinhas da Milena, digo, as Headshops, que eu imagino que eram basicamente os diretórios acadêmicos de faculdade, cheios de arte, jovens e maconha. Numa vibe meio porão do Eric, as headshops eram o ponto de encontro de pessoas também consideradas marginalizadas, os PotHeads, gente que faz a cabeça, fuma um, e a expressão pode ser uma pista da origem do nome Head Shop, um lugar para fazer sua cabeça.

 

Epidemia da AIDS e Cannabis Medicinal

 

Mas um laço definitivo de união dos movimentos foi no início dos anos 80 até a metade dos anos 90 pelo menos, que os EUA e o mundo enfrentaram a epidemia da AIDS como era chamada. Uma doença que ninguém sabia exatamente o que era, não tinha cura nem tratamento, que matava todos os dias e o presidente se recusava a lidar com ela até que tivessem morrido cerca de 23 mil pessoas, soa familiar? Pois é, a diferença não está só nos números, na época, ainda dominada pelo preconceito a sociedade rapidamente atribuiu a doença a comunidade LGBTQIA +, chegando a chamar de Peste Gay.

 

A união desses dois fatores fazia com que os pacientes ficassem extremamente constrangidos de buscar ajuda e sofressem em isolamento, já assistiu Dallas Buyers Club? Quando as primeiras pesquisas e tratamentos surgiram, eram muito agressivos e tinham tantos efeitos colaterais que muitos pacientes não resistiam.

 

A parte importante é que uma série do que seriam ativistas canabicos no futuro, médicas, enfermeiras ou simplesmente maconheiras, passaram a sugerir, ilegalmente ainda, o uso da ganja para aliviar os sintomas desses tratamentos. Os ¨hippies¨ e a comunidade LGBT tinham um objetivo em comum, conseguir liberar a maconha pelo menos para uso medicinal, que era uma saída pela urgência do momento.

 

Nessa mesma época, os novos reforços contra as drogas chegavam a todo vapor, o Presidente Ronald Reagan é um dos principais incentivadores da guerra às drogas, modificando leis e impondo campanhas publicitárias para ¨prevenir¨ os jovens, por isso, muitos daqueles saudosos Headshops que surgiram nos anos 60, não sobrevivem essa época.

 

 

União dos Ativistas das Causas nos Anos 90

 

Para que essas lutas pudessem se conectar era importante unir figuras corajosas, como a caça às drogas estava comendo solta qualquer relação com o cigarro do capeta era considerado crime pesado, e mesmo assim algumas pessoas metiam as caras e arriscavam sua liberdade às vezes para ajudar os amigos, dentre elas algumas figuras se destacaram.

 

Mary Jane Rathur / aka Brownie Mary

 

A Mary Jane fazia parte do grupo Sticky Fingers Brownies que vendia por preços mega acessíveis justamente para pacientes sofrendo com essa doença que ainda não tinha cura e o tratamento era bem agressivo, a Mary chegou inclusive a trabalhar nos hospitais nas alas que cuidavam dessa galera ganhando o prêmio de voluntária do ano. Esse grupo de rebeldes lariquentos inclusive tem mais uma história interessante contada por uma das filhas das amigas da Mary.

 

 

Denis Peron

 

Se o Sticky Fingers Brownies fosse um grupo de whatsapp certamente o Denis seria o adm, convidando pessoas para mandar um salve às 420 e organizando as primeiras resoluções para tentar a legalização do medicinal, especialmente depois de perder seu companheiro para a AIDS. Foi um dos primeiros a abrir um dispensário público, o San Francisco Cannabis Buyers Club, óbvio que a polícia colava lá direto, e não era pra fumar um claro!

 

Dr Rick Doblin, é diretor executivo da MAPS, uma associação de estudos de psicodélicos, que enquanto a gente cantava Evidências, no começo dos anos 90, ele buscava médicos e pesquisadores para estudar a maconha medicinal. Um dos únicos médicos que topou estudar um assunto tão controverso foi o Dr Donald Abrams, que trabalhava com pacientes com HIV/AIDS e câncer, ok quem é o quebrador de tabu agora? E esse match, mesmo passando por mil obstáculos conseguiu realizar estudos para comprovar a eficácia do uso da ganja.E esse foi um dos grandes avanços na área medicinal da Ganja.

 

Compassionate Use Act de 1996

 

Com bastante pressão, com pesquisa acontecendo uma luz no fim do túnel se fez visível, a primeira Regulamentação da Cannabis Medicinal, Compassionate Use Act, que na verdade era uma autorização para pacientes naquele momento. Tudo começou em São Francisco, onde o Denis Peron junto com mais alguns profissionais conseguiu entrar com algumas petições e propostas de lei na cidade para permitir a cannabis no alívio desses tratamentos pautados já em estudos. Várias outras cidades da Califórnia aderiram às mesmas medidas,e em pouco tempo já rolava uma pressão para aprovação do estado todo. O Denis sofreu tantas ameaças que teve que sair dos Estados Unidos, mas não desistiu porque em 95 eles decidiram levar o assunto às votações e só em 96 com 55,5% dos votos finalmente foi aprovada a autorização para os pacientes. Com todo o cenário de eleições, os estudos comprovando eficácia e a prisão de ativistas fizeram as estrelas se alinharem para maconha como disse Peron, trazendo um alívio pequeno diante da enorme luta.

 

 

Primeiros Dispensários Medicinais

 

Inspirado por Denis Peron, temos um personagem muito importante nessa história, eu diria até importantíssimo, o Paul Scott. Paul era um enfermeiro que trabalhou muito tempo com pacientes de HIV e teve contato com o Denis quando conheceu o San Francisco Buyers Club, clubinho para pacientes, que foi para buscar ajuda no seu próprio tratamento. Paul um homem negro, gay e buscando cannabis como ajuda medicinal sentia aquela realidade dos clubinhos muito surreal, aquele mundo não parecia de verdade, uma união de pessoas que partilhava das mesmas causas, unidos para tratamento com maconha não fazia parte da realidade dele até então. Naquela época, até mesmo com as primeiras autorizações chegando muitos dispensários eram fechados, a coisa não tava liberada geral e quando o San Francisco fechou, Paul descobriu no boca a boca que na cidade vizinha o corre tava rolando. Pois chegando lá ele foi logo convidado para fazer parte da chefia do dispensário, onde ficou até ser o que? Fechado! Ele apesar de não ser brasileiro, não desiste nunca e abriu seu próprio dispensário na sua cidade natal, não só aqueles dispensários tinham sido a principal forma de acesso dele à cannabis, mas também uma forma de encontrar uma rede de apoio e por isso trabalhou ajudando muitos pacientes por mais de 12 anos e continua até hoje como ativista, sendo o presidente da Los Angeles Black Gay Pride Association.

 

 

LGBTQIA+ Cannabis = s2

 

E foi assim que as comunidades se uniram em busca de um bem comum, levou muito tempo até que outros estados aderissem as medidas, e mesmo assim a legalização americana ainda está muito longe de expressar igualdade. Só hoje em dia alguns estados estão se abrindo a uma permissão mais ampla, apenas 17 dos 50 estados permitem o que eles chamam de uso recreativo, e aí mora um problema, enquanto houver distinção entre recreativo e medicinal, a ganja vai ser usada para criminalizar e marginalizar pessoas que a sociedade ainda não aceita e talvez todo uso seja terapêutico, bastando apenas educar o uso. Essa história toda faz pensar o quanto grupos diferentes podem ter o mesmo objetivo e o quanto a união entre eles pode encurtar o caminho até lá.

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